Formado em bacharel e licenciado pelo Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo USP, o cantor Solano Jacob desde sua entrada na graduação já almejava se aprofundar na conexão entre o ramo educacional e o musical. Durante vários anos ele esteve á frente da banda Leões de Israel até que em 2006 decidiu deixar a banda e seguir carreira solo, lançando em 2008 seu primeiro cd (e livro também) "A Fé E A Razão". Sempre em movimento, no começo do ano ele fez a cobertura de um dos maiores festivais da Jamaica e recentemente se apresentou em alguns países da Europa...

1- Você é um cara que já tem uma experiência fora do Brasil, primeiro quando ainda estava na banda Leões de Israel e foram se apresentar no Rebel Salute em 2006 na Jamaica. Esse ano você esteve novamente na Jamaica, o que você sentiu de diferente dessa segunda vez lá?

Esta segunda experiência na Jamaica realmente foi diferente da anterior. Na primeira ocasião eu estive lá basicamente para tocar no Rebel Salute e depois retornei ao Brasil. Desta vez eu passei praticamente um mês na ilha. Cheguei no dia do Rebel Salute com autorização do Tony Rebel para juntamente com Dada Yute realizarmos uma cobertura dos bastidores do festival. Entrevistamos muitos artistas como Capleton, David Hinds, Ras Shiloh, Barrington Levy e Lutan Fya. Tive a oportunidade de conhecer diversos estúdios de gravação incluindo a Tuff Gong. Durante este tempo, eu gravei com alguns cantores jamaicanos como Spring I, Sugar Roy e Cristal, EQ e Jah Marcus e estas faixas que foram produzidas instrumentalmente aqui no Brasil estarão no meu próximo álbum. Outro avanço foi a possibilidade de firmar-me como um promotor de intercambio musical entre os cantores de lá e os daqui e este processo já começou.

2- Hoje com essa globalização toda através da internet você acha que está mais fácil alcançar o mercado internacional já que você também canta várias músicas próprias em inglês?
Não acredito que somente a Internet seja um facilitador para um sucesso fora do país. Ela é um bom veiculo de comunicação, mas por outro lado existem milhares de cantores que estão realizando o mesmo tipo de mídia para divulgarem seus trabalhos. O resultado é que a internet se encontra entupida de informações de todos os lados, muitas vezes sem direcionamento e o meio se torna mais competitivo. Sairão na frente os melhores em qualidade e infelizmente ainda os que têm mais dinheiro para investir em propaganda.

3- Como foi essa experiência de fazer alguns shows recentemente na Polônia com o Dubiterian?
Os shows não foram somente na Polônia, mas também na Alemanha e Eslovênia. Eu e Dubterian estávamos seguindo a turnê de lançamento do novo álbum do músico e cantor sérvio Hornsman Coyotte. Foi uma experiência fantástica, a receptividade do público foi além das minhas expectativas e não raro já sabiam até algumas de minhas canções. Vejo claramente que a exposição de artistas brasileiros no exterior abrirá as portas para que novos talentos do nosso Brasil possam também mostrar seus trabalhos por lá.

4- Aqui no Brasil o mercado do reggae anda meio confuso. O que você acha que falta pra cena do reggae em geral ficar mais forte e ter mais respeito na mídia aqui no Brasil?
Enquanto o reggae for visto pela mídia como um movimento de drogados, doidões e rebeldes sem causa ou de fanáticos religiosos que adoram um ditador etíope, nada muda. A questão não é mascarar o que não existe e sim mostrar o que de fato acontece. Primeiramente, o reggae é uma música do povo Rasta e ser Rasta é seguir Emmanuel que é Cristo Jesus. Assim, seus trabalhos e ministérios sempre estão à frente de tudo. Quem é que vai negar seu governo? Redenção e Amor sem fim, este é o objetivo. Mas se disserem que os Rastas lutam por isto, ainda vão dizer que não somos do tipo socialmente aceitáveis? É meu querido, a verdade é tão dura que muitos preferem a sombra para não se ofuscarem com tanta luz. Mas Jahoviah tem abençoado a todos nós porque os servidores de Emmanuel não param de crescer pelo mundo. Quanto à questão do respeito da mídia especificamente, o que necessitamos é de grandes investidores da indústria musical, para colocar nossos artistas do reggae frentes aos grandes. Nós temos potencial, isto é indiscutível.

5- Você tem um estúdio e gravou seu disco de estréia nele ("A Fé e A Razão"), que por sinal foi muito bem gravado. Já tem coisas novas sendo gravadas?
Primeiramente agradeço pelas palavras de reconhecimento quanto a qualidade do meu último álbum, mas reitero que isto não seria possível sem a contribuição de outras pessoas que também derramaram seu suor para chegarmos a este resultado final. Entre eles estão, Kuky Lughon, Paulo de Castro, Douglas Earl, Wagner Bagão, Lincoln Bretha e muitos outros com suas participações não menos louváveis. No momento o estúdio está funcionando a todo vapor e estamos produzindo já as faixas do meu novo álbum que como já citei anteriormente, contarão com a participação de artistas de fora do Brasil.

6- O que você tem escutado ultimamente que tem servido de inspiração no dia-a-dia?
Eu procuro ouvir sempre um pouco de tudo. Até um tempo atrás estava a pesquisar a sonoridade do dancehall, e acho fantástica quando bem tocada e acompanhada com instrumentos de orquestra como faz Junior Gong. Ultimamente eu tenho me dedicado ao estudo de linhas vocais mais suaves e que exploram um lado mais melódico. Entre as influências posso citar: Luciano, I Wayne, Warrior King, Ras Shiloh, Wayne Wonder, Garnett Silk sem contar alguns dos exemplos nacionais como Geraldo Azevedo, Xangai e Djavan.

7- Paralelamente a música e a vida de cantor, você também é professor. Já vi comentários no seu Orkut de seus alunos te elogiando como professor. Você já sentiu algum constrangimento na escola pelo fato de também ser artista?
Nunca tive constrangimento por ser cantor, principalmente porque meus alunos sabem de antemão que a função da arte é criar novas possibilidades de vida. A vida neste sistema cruel e impiedoso que é nossa sociedade, perceba, é sempre a mesma. Os mesmos sonhos de beleza, os mesmos padrões de consumo, doenças, vícios, prisões, escolas e até felicidades eternas que nunca chegam. Por isto, talvez hoje em dia existam tantos casos de depressão. Realmente é difícil agüentar uma vida que nunca muda. Mas a arte existe para isto e nada mais. Criar um mundo diferente. E não por acaso, este é o mesmo papel que a escola deveria exercer. Não raro meus alunos me reconhecem como cantor até mesmo porque como professor eu também sou conhecido como Solano Jacob. Eles entram no site, visitam o myspace e muitos até vão nos shows e compram o livro e cd. Fico feliz em saber que meus alunos também apreciam o meu trabalho como cantor já que a experiência nos palcos é muito parecida com a de um professor em sala de aula. Ser professor e cantor de reggae, na verdade, são duas faces da mesma moeda porque um completa o outro. Por exemplo, muitos dos capítulos do livro A Fé E A Razão carregam experiências que tive no ramos da pedagogia e a as pesquisas que realizei durante parte de minha formação.

8- O seu livro "A Fé E A Razão" causou polêmica ao mesmo tempo em que recebeu boas críticas. Pretende escrever outro livro?
A necessidade de uma abordagem literária deste tema de fundamental importância para a vida de qualquer ser humano, este foi o meu foco e fico feliz por ter atingido certa abrangência, até mesmo porque em verdade seu intuito não foi converter ninguém aos meus ideais, mas dar às pessoas palavras com poder de fazê-las duvidarem de suas próprias convicções, para que as mudando, se tornem pessoas melhores a cada dia. A Fé e a Razão são ferramentas fundamentais para nos aprofundarmos na relação entre o homem e Deus. Está escrito que devemos amar Deus sobre todas as coisas, porém com todo o nosso entendimento, compreensão e esforço mental, ou seja, com a razão. A Fé e a Razão de fato necessitam uma da outra. Como podemos acreditar em algo que não compreendemos? Quando primeiro se afirmou que a Terra era redonda, a igreja quis matar seu autor. Não dispunham de conhecimentos científicos e também não dominavam os instrumentos que permitiram o descobrimento de tal afirmação. Portanto, a única fé que devemos propagar é a fé racionalizada, compreendida. Vejam os extremistas religiosos do oriente, muitos acoplam em seus corpos, bombas poderosas e cometem suicídio acreditando que matando a si mesmos e também outras pessoas inocentes, conseguirão um lugar no Céu. Eles fazem isto por causa da fé que possuem, mas é preciso somente um mínimo de inteligência para nós compreendermos que um Deus amoroso e misericordioso como é o nosso Deus, jamais consentiria tal ato insano. O Livro A Fé E A Razão foi somente o primeiro passo de uma série literária que pretendo lançar. O próximo livro já está em andamento e sairá juntamente com o novo álbum em meados de 2011.

9- Suas letras têm sempre um grau elevado de consciência, sob o ponto de vista Rastafar-I e Cristão ao mesmo tempo. As pessoas ainda te enchem o saco por você falar sobre Selassie e Jesus?
O entendimento quanto à pessoa de Selassie I é muito diverso até mesmo entre as diferentes Ordens do movimento Rastafari. Para alguns ele é o Cristo Reencarnado, para outros ele é o próprio Deus em carne. Eu particularmente não afirmo ou nego que Haile Selassie fora reencarnação de Cristo na Terra. Talvez eu não seja tão lúcido o suficiente para afirmar que sim ou que não. Mas isto não tem importância, porque o que realmente vale não é definir a figura humana de Jesus aos olhos do mundo, mas viver a vida que Ele nos ofereceu, enquanto ainda é hoje. Assim afirmava Paulo, um dos apóstolos, o apóstolo dos gentios. Cristo se manifesta de diversas formas, principalmente nas ações daqueles que cumprem a Sua vontade de justiça, então porque não através do corpo físico de Selassie? Seu conceito de justiça era muito diferente dos homens. Nós quando injustiçados, buscamos a compensação sempre na punição daquele que nos prejudica. Cristo por outro lado era um ser misericordioso, amoroso ao extremo. Quando Mussolini estava com todo o seu exército prestes a invadir a Etiópia, Haile Selassie foi avisado e então realizou um pronunciamento para toda a nação para que a partir daquele momento praticassem o jejum e a oração em favor dos inimigos italianos. Mussolini por sua vez, ao ouvir sobre a atitude do Imperador, ordenou em seguida que o massacre começasse, ou seja, tamanha misericórdia soara para ele como o maior dos insultos. Assim, são pelas atitudes que reconhecemos os verdadeiros operários de Cristo. Selassie foi certamente um enviado de Cristo na Terra para uma missão muito importante e crucial nestes tempos.

10- Desde a época do Leões você teve a oportunidade de dividir o palco com grandes artistas e também de se apresentar em grandes shows. Pra você, quais foram os melhores shows que você fez até hoje?
Os melhores shows nem sempre são os que têm mais público. O que de fato importa é a qualidade do equipamento de som para que possamos executar o som com clareza e profissionalismo e principalmente o respeito recíproco entre o publico e nós. O show do Rebel Salute na Jamaica foi inesquecível. Nós havíamos ensaiado muito e fiquei muito surpreso quando aplaudiram nossa música. Vindo de jamaicanos isto significa muita crítica musical. A turnê com Gregory Isaacs também foi outra grande lembrança principalmente o show em Salvador para mais de 30.000 pessoas. Lembro-me de um show no SESC BELEM numa tarde ensolarada. Tinha milhares de pessoas e o palco em forma de concha abraçava o publico que assistia de um relevo bem íngreme. Os shows durante o dia e a céu a aberto costumam ficar na memória. É um outro clima, longe das noitadas e baladas, muitas vezes vemos famílias inteiras com crianças cantando e dançando.

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