“Não sei quem foi. Deve ter sido alguém da vizinhança, que se incomodou. Dava para ver a plantação do quintal, alguém pode ter visto do alto, não sei. ”, afirma.
Nos 14 dias em que esteve preso, Caetano recebeu o apoio de amigos e fãs, até que uma nova promotora do caso retirou a acusação de tráfico e reapresentou seu caso, o acusando apenas de posse de substância ilícita. Na quarta (14), ele foi liberado após autorização de um juiz.
Sigo a religião e a filosofia do rastafári. Não sou bandido. Sou um cara trabalhador, que tem a vida resolvida. Sustento minha família com meu trabalho”, afirma. Ele conta que plantava a droga há cinco anos para “não sustentar o tráfico e não correr riscos de saúde”.
Sobre a carta que quatro neurocientistas fizeram para defender a sua libertação, ele se diz agradecido. “Teve um impacto grande. A gente precisa disso, de pessoas renomadas e inteligentes se posicionando. É um assunto importante, o que aconteceu comigo pode acontecer de novo”, afirma.
Caetano defende a descriminalização do uso recreativo da maconha. “Passei 14 dias lá sem fumar e não sofri nada. Não sou viciado. Estou sem fumar até agora, sem problemas”, conta.
Cabeça raspada
Ao chegar na delegacia, em São Gonçalo, teve que aguardar o fim do jogo entre Brasil e Holanda, na manhã do dia seguinte, 2 de julho, para ser processado na carceragem.
“Foi o momento mais difícil. Cheguei ali, tinha 18 presos na cela, um monte de gente, uma coisa suja, meio assustadora. Eu não sabia o que ia acontecer e tinha que esperar o jogo acabar para eles virem falar comigo”, conta.
Antes de ser enviado a sua cela, Caetano teve que raspar os longos cabelos com “dreadlocks” e a barba, que cultivava há mais de três anos. “Era uma questão de higiene. Tem muita gente ali, eles precisam manter o controle. Eu compreendi. Fiquei chateado, mas era uma coisa que precisava ser feita. Entendo o motivo”, afirma.
De São Gonçalo, o baixista foi levado à Polinter do Grajaú, onde ficou os 13 dias seguintes, em uma cela com outros dois presos.
“Dei sorte. A cadeia tem divisões, como a sociedade. Tem as celas pro povão, onde tem 70 pessoas num espaço de 40 metros quadrados. Daí tem as celas pro povão ‘especial’, com menos gente. E as celas pra universitário e quem tem dinheiro, em que o cara fica sozinho. Eu fiquei na intermediária, eu e mais dois em uma cela de uns nove metros quadrados.”
 |
Caetano era o único preso por envolvimento com maconha. Seus companheiros de cela eram um acusado de assassinato e um acusado de pedofilia. “O acusado de assassinato era culpado mesmo, ele matou a mulher. O outro foi acusado injustamente. Eu vi a índole dele, não era uma má pessoa”, conta.
Apesar de avaliar a experiência como “horrível”, Caetano diz que conheceu muita “gente de bem” na Polinter. “Não sofri violência nenhuma. Os policiais me trataram com muito respeito. Os presos também. A igreja evangélica faz um trabalho importante lá dentro, é muito presente, leva conforto e deixa a experiência toda menos dolorida”, avalia.
Um dos policiais da Polinter que conheceu Caetano enquanto o músico esteve preso afirmou que seu comportamento era "normal" e que não houve problemas durante o período em que ele esteve na carceragem. |
Volta à rotina
De volta a sua casa, Caetano diz que vive “um momento de reflexão”. Ele conta que não vai retomar a plantação no quintal. “Estou vivendo um período de jejum. O jejum também faz parte da nossa filosofia. Agora vou dar um tempo e me concentrar no meu trabalho.”
Com seu baixista de volta, a banda Ponto de Equilíbrio deve sair em turnê no segundo semestre. “Nosso novo CD se chama ‘Dia após dia lutando’. Tem tudo a ver com esse meu momento. Vamos seguir na luta”, diz Caetano.
“A cadeia é um aperto muito grande. Nasci de novo ao sair. Aprendi a dar mais valor para tudo, espiritualmente, materialmente. Agora agradeço por cada almoço que eu tenho e cada centavo que ganho. Só espero que ninguém mais tenha que passar pelo que eu passei.”
Leia a carta que “Pedrada” escreveu na prisão:
Irmãos e irmãs de todo o Brasil...
Primeiramente agradeço pela atenção e interesse de todos e peço encarecidamente para que não deixemos essa chama se apagar...
Tudo começou há mais ou menos cinco anos atrás, quando tive meu primeiro pezinho. Na verdade, nunca escondi muito que plantava apesar de ter noção que poderia ser pego por isso. Pelo contrário, me orgulhava por não financiar o tráfico e ainda por cima desfrutar de uma erva com pureza e qualidade sem igual.
Infelizmente o pior aconteceu e fui "flagrado" com minhas plantinhas no meu quintal. Isto ocorreu por uma denúncia de alguém que se incomodou com meu costume e me dedurou para a polícia do 75º DP de Rio do Ouro, fato que me questiono, pois moro em Itaipu (região oceânica de Niterói), área do 81ºDP.
Desde o momento em que fui abordado percebi a finalidade da polícia e não ofereci nenhuma resistência, inclusive permitindo a entrada deles na minha residência. Afinal, quem não deve, não teme.
De lá fui encaminhado para o 75º DP, onde fiquei de molho num depósito cela com chão úmido e péssimo cheiro, com umas motos velhas entulhadas e outro preso para dividir uma cadeira e jornal no chão para deitar. Fiquei lá das 10h até 6h da tarde aguardando o desenrolar da situação.
Durante minha espera a imprensa foi acionada e junto com a perícia se encaminharam até a minha residência. Lá, infelizmente a imprensa invadiu minha propriedade sem permissão da minha esposa que lá estava. Enquanto eles posavam para fotos com as plantas e pareciam se divertir com a situação junto com o pessoal da perícia, minha esposa, para se preservar ficou no quarto chorando e pedindo para imprensa ir embora, sem sucesso.
De volta à delegacia já com meu advogado em ação fui autuado no artigo 33 como traficante. Ironia do destino, logo eu que me orgulhava de não colaborar com o tráfico, estava preso dessa maneira.
Da 75º fui para Polinter em Neves (São Gonçalo). Logo chegando lá fui obrigado a raspar o cabelo e a barba e encaminhar para o "xadrex 8", onde dividi uma cela de aproximadamente 40 m² com outros 70 presos. Mas graças a Deus e aos amigos não precisei passar a noite inteira ali, no "xadrez 8". E no meio da noite tive o privilégio de ir para uma cela mais humana.
No dia seguinte fui transferido para a Polinter do Grajaú, onde estou agora. Cheguei pouco antes do jogo do Brasil contra a Holanda. Logo que cheguei me botaram em um lugar chamado "porquinho": uma salinha fechada de aproximadamente 7 m², onde os presos aguardam para ser encaminhados para ir para as suas celas. Por azar do destino pouco antes do jogo, o "porquinho" ficou super lotado com 18 presos e tivemos que aguardar desconfortavelmente enquanto o jogo do Brasil rolava. Nunca vou esquecer disso, graças a Deus o jogo não foi à prorrogação.
Agora estou no "X-12" com outros dois presos. Posso dizer que estou em condições humanas perto do que vejo em outras celas aqui mesmo.
Por aqui a vida é nua e crua. É uma espécie de curso intensivo forçado de como viver a vida. Você vê claramente que só há uma coisa a fazer: se agarrar em Deus.
Aí fora sou conhecido no mundo da música como Pedro "Pedrada", baixista da Banda Ponto de Equilíbrio, bastante popular do segmento do reggae (ritmo de origem jamaicana com muitos apreciadores no Brasil). Como muitos, sou um rastafari. Rastafari para alguns é filosofia de vida, para outros é corte de cabelo, mas para mim e muitos irmãos e irmãs é uma religião e existe toda uma cultura em torno dos rastas.
Uma das características mais surpreendentes da cultura Rastafari é o uso da ganja (canabis sativa popularmente conhecida como "maconha"). Dentro de rituais religiosos onde se lê a Bíblia e outros textos sagrados, tocamos tambor no ritmo Nyahbinghi e entoamos hinos de louvor a Deus (Jah) e aos elementos da natureza. Até o Príncipe Charles já participou de um ritual Nyahbinghi, pode se assistir em vídeo postado no youtube.
Eu como rastafari sempre enxerguei a ganja como uma planta sagrada e buscava o uso de forma respeitosa de acordo com os preceitos da religião a que sigo. Sendo o Brasil um país laico me senti profundamente lesado com a atitude da polícia e da imprensa com a forma que fui tratado.
Outro elemento da minha religião são os dreadlocks, tipos de cabelos usados pelos rastas, o qual fui obrigado a cortar para entrar em Neves. Fato que também me lesou moral e espiritualmente.
Termino agradecendo mais uma vez a todos que se sensibilizam com a causa e conseguiram chegar aqui. Resta-me a utópica expectativa de um avanço na política legislativa para que outros não sofram o que eu e minha família sofremos e alerto, em ano de eleição, para um voto consciente.
Paz, amor e caminhos abertos para o povo de brasileiro.
Pedro "Pedrada" Caetano. |