O local de origem do reggae é uma hoje famosa ilha caribenha, a terceira maior da região, com o tamanho equivalente à metade do território do estado de Sergipe. Desde o século XVI até meados do século XX ela foi submetida às políticas exploratórias do sistema colonial. A população nativa, composta pelos índios arawak, chamava a ilha de Xaymaca – Terra das Primaveras –, e tal denominação foi a única herança que deles restou, transformada em Jamaica.
A ilha foi "descoberta" por Colombo em 1494 e ficou sob domínio espanhol até 1660, quando foi tomada por piratas ingleses como Harry Morgan, mais tarde feito governador da nova colônia. Relegada a ser mais um fornecedor de cana-de-açúcar e outras matérias-primas, a ilha foi, por 250 anos, um dos muitos destinos dos africanos tirados à força de suas terras para trabalhar nas plantações do Novo Mundo. A grande maioria veio da costa ocidental do continente negro, de etnias como a dos Ibos, Coromantee, Hausa, Mandingo, Nagô e Yorubá. Os dois últimos povos também foram a origem de grande parte da mão-de-obra escrava trazida para o Brasil.
As tradições destes povos foram preservadas na Jamaica atual em comunidades como a nação Bongo, no leste da ilha, e entre os maroons (antigos quilombos). São comunidades que se dedicam a práticas religiosas chamadas por lá de kumina ou pocomania, parecidas com as que temos nas crenças afro-brasileiras, como o candomblé. No entanto a influência puramente africana na Jamaica é mais remota porque lá o tráfico de escravos foi abolido mais cedo, em 1807, enquanto que as colônias espanholas do Caribe, como Cuba, continuaram a receber novos escravos até 1860. Mesmo assim a música que vinha de seus tambores teve uma influência direta sobre o reggae, como pode ser ouvido em canções como “Rastafari is”, de Peter Tosh, ou no canto tradicional “Rastaman Chant”, gravado pelos Wailers no álbum “Burning”. As canções tradicionais têm o formato de chamado-e-resposta, base de todos os estilos de música negra. A música popular européia, na forma das quadrilhas e canções trazidas pelos ingleses e os intrumentos trazidos por estes, como a rabeca, também teve o seu papel na evolução musical jamaicana.
Mento
Fusão desses estilos, que hoje são considerados como parte do folclore da ilha, gerou o mento, forma musical aparentada com o calipso que usa uma grande variedade de instrumentos, como o banjo, flautins e o violão, muitos deles artesanais como flautas e “saxofones” de bambu. Ainda hoje existem bandas de mento na ilha, a mais famosa delas é a Jolly Boys, que chegou inclusive a gravar um reggae com Lee Perry, a bela “Concious Man”.
Banda de mento de Sugar Belly (com seu sax de bambu)
A grande contribuição do mento foi impulsionar a criação da indústria fonográfica jamaicana, já que os primeiros discos lançados por lá foram desse estilo. No entanto naquela época, primeira metade dos anos 50, já estava acontecendo uma migração considerável da população do interior para as grandes cidades e o mento, associado com as durezas da vida no campo, não conseguiu manter seu lugar no entre os jamaicanos. A levada do mento continua viva no reggae, principalmente em artistas como Eric Donaldson, The Starlights (as pedradas tão apreciadas no Maranhão, Piauí, Pará e outros lugares) e os Maytones, e também nos ritmos da era digital, que já a reaproveitou algumas vezes.
Em Kingston ou Spanish Town o som que mais agradava no final dos anos 50 era o rhythm & blues americano, que reverberava nas ruas através dos sound-systems, então um simples toca-discos ligado a uma ou duas caixas de som, mas que tinha potência suficiente para colocar todos para dançar. As músicas gravadas então nos precários estúdios disponíveis tentavam imitar o estilo americano. Isso mudou em 1961 com o lançamento de “Oh Carolina”, uma tentativa do produtor e dj Prince Buster de misturar os sons com que havia tomado contato nos rituais rastafari com o vocal do blues, algo totalmente diferente do que se ouvira até então. O sucesso foi enorme e pela primeira vez na Jamaica os tambores afro ganharam o rádio (em 1993 Shaggy fez uma versão ragga que estourou mundialmente). Era o início de um movimento de revalorização da identidade cultural da ilha, que chegaria ao auge em agosto do ano seguinte, quando ela conseguiu oficialmente se libertar da sua condição de colônia inglesa.
Ska
Steve Barrow chamou o ska de “declaração de independência musical jamaicana” , um estilo que nasceu ligado ao período de grande entusiasmo e afirmação dos valores culturais locais. Ao mesmo tempo que os discos de rhythm & blues ficavam cada vez mais difíceis de se achar, a Jamaica fervilhava de talentos musicais. O novo ritmo começou a surgir espontaneamente e apesar de muitos disputarem o título de “pai” do ska, como Prince Buster (foto abaixo), Clue J, Coxsonne Dodd e outros, ele foi na verdade uma criação coletiva, como costuma acontecer nesses casos.
O nome ska também é cercado de controvérsia. Alguns dizem que seria uma onomatopéia que imita a forma peculiar de tocar guitarra herdada pelo reggae (também chamada de tchaka-tchaka), enquanto outros juram que sua origem estaria na gíria das ruas, e seria uma abreviatura da interjeição de aprovação “skavoovie”. De qualquer modo, a levada vibrante do ska conquistou primeiro os guetos onde nasceu e logo seria aceita pelas platéias em toda a ilha.
Inspirado nas big bands americanas, o ska se impôs como um estilo tocado por grandes conjuntos, com destaque para o naipe de sopros.
Os Skatalites eram a banda principal, cujo nome era uma homenagem aos satélites de comunicação que estavam começando a interligar o planeta. Composta pelos saxofonistas Tommy McCook (que era o líder de fato do grupo) e Roland Alphonso, o trombonista Don Drummond e outros instrumentistas, era a banda de estúdio mais rodada de Kingston. Eles tocaram com os maiores talentos que emergiam na cena jamaicana, como Bob Marley, Peter Tosh, Lee Perry, Jimmy Cliff, Toots Hiberts and The Maytals e muitos outros.
Quase toda a primeira formação dos Skatalites excursionou pela Inglaterra com o nome de Soul Vendors em 1966. Da esquerda pra direita: Lloyd Knibbs (bateria), o cantor Alton Ellis, Lloyd Brevette (contrabaixo), Jackie Mitoo (órgão), Roland Alphonso (sax), Ernest Ranglin (guitarra solo), Johnny "Dizzy" Moore (trompete), Jah Jerry, (guitarra base) e o cantor Ken Boothe (com o pandeiro). Ellis e Boothe já são representantes do nascente rocksteady. McCook e Drummond não viajaram.
Outras bandas como as de Carlos Malcolm , Byron Lee e Baba Brooks também gravaram o ska. A banda percorreu toda a ilha e se apresentava sempre com grande sucesso. A delegação jamaicana que compareceu à Feira Mundial de Nova York de 1964 levou a banda de Byron Lee, diversos cantores e dançarinos de ska, institucionalizando pela primeira vez a música do gueto como representativa da cultura local.
Assim, a produção e divulgação das músicas era tão ágil que as faixas eram gravadas e mixadas durante a manhã, prensadas à tarde e tocadas à noite nos bailes, os dancehalls, que eram animados pelos sound systems. Além disso, como os artistas ganhavam por faixa gravada, sem receber direitos autorais das dezenas de pequenas gravadoras locais, a produção era intensa. O pequeno poder aquisitivo da população condicionava um processo que levava o público a, primeiramente , ouvir, sentir e dançar cada faixa, para depois decidir se valia a pena comprar o disco correspondente, ação que era acompanhada de perto pelos produtores e músicos.
Deve-se acrescentar ainda a força da intensa competição entre os diversos sound systems, como os de Coxsonne, Reid e os tradicionais Metro Media e Kilimanjaro. Os seus donos estavam sempre à procura de novas sonoridades que poderiam chamar a atenção dos freqüentadores dos bailes e bater os rivais, como aconteceu várias vezes na história do gênero. A Jamaica se transformou em um laboratório sociocultural vivo e dinâmico, tocado, entre outros fatores, pelo ritmo da música.
Por tudo isso, no verão de 1966, o ska seria substituído no coração do público da ilha por uma nova batida, o rocksteady.
Somente vinte anos depois os Skatalites voltariam a tocar juntos, tornando-se parte de uma bem-sucedida retomada do ska, que foi iniciada na década de 1970 pelos filhos dos imigrantes jamaicanos na Inglaterra, formando grupos interraciais como The Specials (ver capa do compacto "Gangsters" abaixo), The Selecters etc.
Nomes importantes dos anos 60, como Rico Rodriguez (foto abaixo) puderam gravar novamente. Hoje o ska ganhou novo fôlego com a chamada third wave, através de grupos com o Hepcat, Toasters e muitos outros que podem ser acompanhados em nossa coluna sobre o ritmo, Skarcéu.
Os Skatalites continuam na ativa, quem quiser conferir basta acessar o site da banda. Para quem quer ouvir algumas faixas da época pode acessar a rádio da BBC inglesa e navegar pelos links sobre o assunto. O ska está mais vivo do que nunca!!
Formação recente dos Skatalites. Os remanescentes da primeira formação são Lloyd Brevette (sentado) e Lloyd Knibbs (último à direita)
Rock Steady
Rocksteady é o nome normalmente dado ao ritmo que dominou as paradas jamaicanas entre o ska e o surgimento do reggae, mais exatamente entre o fim de 66 e a metade de 68. No entanto pode-se dizer que, na verdade, trata-se do primeiro formato que o reggae como conhecemos hoje tomou, tendo muito mais a ver com o ritmo que tornaria a Jamaica famosa em todo o mundo do que com o o ska. Talvez o nome rocksteady não tenha vingado porque poderia ser confundido com o rock n' roll, ou porque os jamaicanos gostaram mais do nome reggae, ou as duas coisas. O fato é que a divisão entre rocksteady e reggae acabou prevalescendo entre os pesquisadores do ritmo e os executivos das gravadoras, o que talvez possa ajudar a explicar por que um período tão importante da música jamaicana permanece pouco conhecido por grande parte do público.
É geralmente aceito que teria sido justamente um cantor, Hopeton Lewis, o primeiro a pedir aos músicos para desacelerar o ritmo do ska para que fosse possível encaixar a letra de uma canção. Nesta gravação histórica, que resultaria no sucesso 'Take it Easy', o pianista Gladstone Anderson teria comentado que aquele era um balanço mais regular, mais firme (rock steady), batizando o novo ritmo. No final de 66, outras canções apareceram retomando o andamento do rhythm & blues de Fats Domino, tão popular na ilha nos anos 50 e aproveitando a batida persistente em que o ska se baseava, criando um som diferente de tudo o que havia sido ouvido antes e que seria a base para tudo o que se faria depois.
Duke Reid e Fats Domino
A introdução da guitarra e do baixo elétricos em meados dos anos 60 pode ser considerada como um evento fundamental que tornou possível esta mudança no cenário musical jamaicano. Eles permitiram que os músicos criassem linhas de baixo mais ágeis, que serviriam como base para o rocksteady e também para o reggae. Outros atribuem tal reviravolta ao verão excepcionalmente quente de 1966. Por outro lado, Bob Marley chegou a comentar que os instrumentistas ligados ao ska, que tinham como referência musical o jazz e rhythm & blues, teriam ficado insatisfeitos com a parca remuneração recebida e diminuído o ritmo de produção, abrindo o caminho o caminho para novos músicos, mais influenciados pela soul music e pelo rock n'roll. Assim, os metais (saxofone, trombone, trumpete etc), que eram a base do ska, foram para o segundo plano, dando espaço para que os outros instrumentos e a voz dos cantores sobressaíssem. Seja como for, logo o rocksteady caiu nas graças dos novos frequentadores dos dancehalls, um público mais jovem e ansioso por um música que cantasse a vida urbana de uma Jamaica que se modernizava rapidamente.
Talvez por isso os primeiros rocksteady tivessem como tema a vida dos rude boys, a juventude sem emprego, rapazes e moças que muitas vezes haviam acabado de chegar do interior e ficavam a vagar pelas ruas das grandes cidades jamaicanas, `as vezes praticando pequenos roubos, `as vezes se envolvendo em brigas e confusões pelos guetos. Prince Buster e sua canção "Judge Dread" condenava os rudies, enquanto que Bunny Wailer lamentava em "Let Him Go" que sua energia fosse desperdiçada nas prisões. Outros clássicos da época foram "A Message to you Rudy", canção de Dandy Livingstone que seria mais tarde regravada pelo The Specials (ver Skarcéu) e a mais conhecida das 'rude boys songs': "(007) Shanty Town", de Desmond Dekker, que foi incluída na trilha do filme "The Harder they Come". Mas logo as canções românticas e as que cantavam a vida cotidiana se impuseram como as mais identificadas com o rocksteady, embora os temas sociais e as mensagens rasta que dominariam o reggae nos anos 70 já começassem a aparecer
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The Wailers
Na época em que o rocksteady começou, Bob Marley estava nos Estados Unidos tentando juntar dinheiro para fundar seu próprio selo de gravação. Logo que ele voltou, no mesmo ano de 1966, juntou-se novamente aos Wailers e gravou alguns rocksteady para Coxsonne Dodd, como "Rocking Steady", mas foi com "Nice Time" e "Put it on", de Marley, que o grupo se manteria no topo e se incluiria na galeria dos grandes grupos harmônicos que começaram naquele tempo. Peter Tosh também adicionaria boas canções à fase rocksteady dos Wailers como a primeira versão de "I'm the toughest" (outra 'rudie song') e suas primeiras louvações rastafari, como "Rasta shook them up" (sobre a visita do imperador da Etiópia, Haile Selassie I, também em 1966).
A concorrência entre os grupos nunca foi tão grande como naquele tempo. Houve uma explosão produtiva na ilha, já que o rocksteady usava menos instrumentistas, o que facilitava as gravações. Dezenas de grupos apareceram (veja a lista abaixo), e os mais importantes foram os Heptones (cujo líder, Leroy Sibbles, também era baixista e criou muitos dos ritmos clássicos do rocksteady e do reggae), os Melodians (com o clássico 'Rivers of Babylon', entre outros) e os Paragons (do vocalista John Holt). Os dois últimos eram ligados a Duke Reid, o produtor que conseguiu tomar por um breve momento a liderança do mercado musical jamaicano do Studio One. Sua gravadora, a Treasure Isle, foi a responsável pela maioria dos sucessos do período. Outros produtores que fariam carreira na indústria musical jamaicana, como Joe Gibbs, Bunny Lee e Lee Perry, também iniciaram suas produções próprias durante aqueles anos loucos e iriam liderar a mudança do som que levaria ao reggae roots.
Algumas das principais características associadas ao reggae começaram com o rocksteady. Musicalmente as bases foram estabelecidas por instrumentistas como Lynn Taitt e Leroy Sibbles, criando os 'riddims' (bases instrumentais) que seriam continuamente reutilizados, desde o roots até a atual era digital (o chamado dancehall não está tão longe do roots quanto se costuma pensar, ver Dancehall), iniciando uma prática que iria definir toda a música realizada posteriormente na ilha. Foi nessa época também que foram realizados os primeiros ensaios do dub e foi sobre os clássicos do rocksteady que U Roy começou a gravar o seu canto falado (ver U Roy), que introduziriam a figura essencial do deejay. Os temas que o reggae exploraria em suas letras, como as mensagens de cunho social, as referências à Bíblia, as louvações a Jah (como "The Israelites", um dos primeiros grandes sucessos internacionais da música jamaicana, que era um típico rocksteady) também se estabeleceram naquele período. Até mesmo as letras que exploram o tema sexual chamadas de 'slackness' tiveram sua origem naquela época, em canções como "Fatty Fatty", dos Heptones ou na série de compactos "Censored", creditada a um certo Lloydie and The Lowbites, tema que dominaria o dancehall no final dos anos 80 e começo dos 90, repercutindo até hoje.
No Brasil o que se conhece do rocksteady são os clássicos como "54-46", "The Israelites" ou "(007) Shanty Town". A já citada trilha sonora do filme "The Harder they Come" tem talvez a melhor seleção da época de transição entre o rocksteady e o reggae roots e é encontrável em alguns sebos. A série "Jamaican Gold" também traz alguns bons exemplos, como os álbuns dos Ethiopians, Hopeton Lewis, The Jamaicans e da banda de Byron Lee, os Dragonairies (ver lista abaixo).No Brasil o que se conhece do rocksteady são os clássicos como "54-46", "The Israelites" ou "(007) Shanty Town". A já citada trilha sonora do filme "The Harder they Come" tem talvez a melhor seleção da época de transição entre o rocksteady e o reggae roots e é encontrável em alguns sebos. A série "Jamaican Gold" também traz alguns bons exemplos, como os álbuns dos Ethiopians, Hopeton Lewis, The Jamaicans e da banda de Byron Lee, os Dragonairies.
Hoje o rocksteady se mantém vivo, através de artistas identificados com aquele período, como Alton Ellis, Ken Boothe e Eric Donaldson, que não conseguiram se adaptar `as mudanças do ritmo, mas que retomaram suas carreiras recentemente. Produtores como Joe Gibbs estão voltando `a ativa, entre outros motivos, para para suprir o mercado brasileiro, mais exatamente no Maranhão e outros estados que tornaram o reggae um fenômeno de massa com músicas novas de artistas ligados ao rocksteady e ao reggae roots. Como se isso não bastasse, algumas bandas novas, particularmente da chamada third wave do ska (ver Skarcéu), como Hepcat e Dr. Ring-a-Ding and The Seniors All Stars, vêm mantendo viva a chama do rocksteady, para a alegria dos que gostam desse ritmo "caminhante" e vibrante e de todos os que apreciam a boa música.
REGGAE
Considerado por muitos como a era de ouro da música jamaicana, o período correspondente ao Roots Reggae (1968-1985), marcou a diversificação e a expansão do ritmo de Jah para novas fronteiras musicais e geográficas
Hoje em dia, depois da popularização mundial do reggae, este termo passou a ser utilizado também para designar toda a produção musical da Jamaica nos últimos quarenta anos, o que ressalta a unidade musical do gênero ao longo deste tempo. Contudo, o reggae propriamente dito foi batizado em 1968, com a canção “Do the Reggay” (assim mesmo, com a grafia errada), de Toots Hibberts (foto) e os Maytals.
Atualmente, esse período inicial do ritmo de Jah é chamado de roots reggae (reggae de raiz) ou simplesmente roots. Embora hoje a maioria dos regueiros chame de roots qualquer reggae que não seja baseado em ritmos eletrônicos, essa classificação do estilo como pertencente a uma época específica ainda é a mais aceita e usada nas principais fontes de informação sobre o tema.
Existem muitas versões para a origem do nome reggae, entretanto a mais aceita é a que este seria uma adaptação da palavra “ragged”, que indica uma roupa suja e rasgada ou a pessoa que a usa. O nome é uma indicação clara das origens do reggae, que nasceu nos barracões de zinco das favelas jamaicanas, em um período de intensa experimentação musical, absorvendo as contribuições do ska e do rocksteady e canalizando tudo em um novo gênero musical.
Disco da gravadora anglo-jamaicana Pama Records, de 1969, um dos primeiros a usar a palavra Reggae na capa.
Tudo isso aconteceu também porque uma nova geração de músicos estava surgindo no final da década de 1960 e início da de 1970. Eram artistas como Aston "Familyman" Barret, Leroy "Horsemouth" Wallace, Earl "Chinna" Smith, Max Romeo, entre outros, que buscaram marcar presença alterando a interpretação do ritmo. O que eles fizeram foi dar mais importância à bateria e à guitarra na mixagem, elaborar linhas de baixo mais pulsantes e menos melódicas e cantar de forma mais áspera. Mais uma vez a situação econômica, social e cultural da ilha teve influência marcante, pois a principal mudança ocorreu nas letras, que estavam mais impacientes, menos inocentes e mais contundentes que as do rocksteady.
As expectativas por uma vida melhor, alimentadas no calor da independência da Jamaica, não estavam se cumprindo, o êxodo rural se intensificava, o desemprego aumentava e as condições de trabalho não melhoravam. Os artistas se tornavam porta-vozes da desilusão e da raiva do povo e influíam no direcionamento destes sentimentos. O movimento religioso conhecido como rastafari também alcançou grande repercussão entre a população carente e os artistas do reggae. O forte comprometimento com a denúncia e com a transformação social, juntamente com a mensagem religiosa, se tornaram os fundamentos do reggae. Muitos artistas apareceram nessa época (veja a lista ao final do texto) e contribuíram para ampliar a força do ritmo.
Em termos musicais, as primeiras canções que anunciaram a nova tendência foram clássicos como "People Funny Boy", de Lee Perry (foto acima), "Nanny Goat", de Larry Marshall e "No More Heartaches", dos Beltones, que aceleravam um pouco a batida do rocksteady sem chegar ao andamento frenético do ska. A canção de Perry usava efeitos sonoros como choro de bebê e garrafas se quebrando, deixando claro que os técnicos de som e produtores iriam interferir mais no resultado final do que antes. Esta tendência acabou se confirmando e desembocou no Dub.
Muitos artistas estavam chegando do campo e traziam para a cidade uma sensibilidade diferente e uma carga cultural local mais intensa. Alguns vinham de comunidades com forte influência da cultura rural, que ainda ouviam bastante o mento (ver na Primeira Parte da História do Reggae), diretamente ligado à matriz africana. Cantores como Eric Donaldson e Justin Hinds faziam parte desta leva, com fortes laços com o interior da ilha. Ao mesmo tempo, estava em gestação entre outros músicos e produtores um novo estilo, mais cosmopolita, que iria fazer com que o reggae alcançasse finalmente o público fora da Jamaica.
Bob Marley em 1974
Bob Marley e a internacionalização do reggae
Até o início dos anos 1970, o ritmo de Jah estava restrito à sua terra natal e às comunidades jamaicanas encravadas nas grandes cidades inglesas, americanas e canadenses. Na mesma época em que o reggae nascia na Jamaica, os artistas exilados também começaram a produzir música, principalmente na Inglaterra, onde uma forte cena foi construída desde o final dos anos 1960 por nomes como Dandy Livingstone, Laurel Aitken, Winston Groovy e outros (que são assunto para outro artigo). Esta conexão inglesa se tornou uma ponte para o mercado internacional, que seria finalmente atingido com a ascensão do grupo conhecido como Bob Marley and The Wailers.
Em 1971, depois de sete anos de carreira na Jamaica e sem conseguir com a música mais do que o minimamente necessário para a sobrevivência, os Wailers (Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer) juntaram algum dinheiro e fizeram apresentações pela Inglaterra, onde seu trabalho era razoavelmente conhecido. Lá foram abandonados pelos organizadores da excursão, mas conseguiram se salvar graças a um contato com o anglo-jamaicano Chris Blackwell, dono da gravadora Island. Tal encontro iria mudar o reggae para sempre e abrir as portas para que o ritmo jamaicano chegasse a lugares que seus idealizadores nunca imaginariam, como o Brasil.
Peter Tosh
O grupo assinou um rápido contrato com a Island e gravou na Jamaica as bases de um disco que foi trabalhado desde a concepção visando uma audiência específica: o público de rock. Para tanto foram realizadas várias adaptações no reggae roots. Para começar, este álbum, o hoje famoso “Catch a Fire”, foi gravado como uma unidade, enquanto que os álbuns de muitas faixas lançados na Jamaica eram na verdade compilações de compactos. Canções antigas como “Stir it Up”, de Marley e “Stop that Train” , de Peter Tosh, foram regravadas e outras foram compostas especialmente para o disco. A duração das faixas foi aumentada para quatro, até cinco minutos, contra três minutos em média para os reggaes produzidos anteriormente.
Além disso o álbum foi remixado por técnicos ingleses nos equipamentos mais avançados da época, para que, entre outras coisas, fosse dado menos destaque ao baixo tocado por Aston “Family Man” Barret e Robbie Shakespeare (este último apenas na faixa "Concrete Jungle"). Também foram acrescentadas as linhas de guitarra do roqueiro Wayne Perkins, alguns teclados e uma percussão básica. Para finalizar o trabalho, muito tempo foi gasto para “limpar” o som e deixá-lo mais claro, dentro dos padrões internacionais.
O que poderia ter resultado em uma espécie de “frankenstein musical” se tornou a gênese de um novo estilo do reggae. Porém o processo de adaptação do ritmo jamaicano ao gosto da audiência roqueira acabou também por influir na relação de Marley com Peter Tosh e Bunny Wailer. Blackwell queria promover o primeiro como a cara do grupo, pois queria divulgá-lo à maneira das bandas de rock (que sempre tinham um vocalista principal) e também porque achava o formato do trio vocal ultrapassado. A mudança de nome para Bob Marley and The Wailers foi o sinal de que o produtor conseguiu o seu intento. Os dois companheiros se sentiram deixados de lado e logo sairiam dos Wailers, deixando Marley livre para se tornar o primeiro superstar do Terceiro Mundo. O lado bom de tal rompimento foi que Tosh e Bunny também ganharam condições de desenvolver um trabalho solo excepcional, embora não tenham alcançado o sucesso comercial do antigo parceiro.
Os Wailers ensaiam no estúdio da Island em 1972
O primeiro álbum de Bob Marley and The Wailers por uma grande gravadora estabeleceu novos padrões para o reggae. Ele praticamente criou um novo estilo, que o dub poet Linton Kwesi Johnson chamou de “reggae internacional” . É o modelo adotado por artistas oriundos dos Wailers como Peter Tosh, alguns dos herdeiros diretos de Marley, como os filhos Ziggy, Julian e Demian, além de artistas e grupos que estão na ativa hoje, como Burning Spear, Culture, Black Uhuru, Third World, Aswad e Steel Pulse.
É o reggae internacional que serve como referência para a maioria das pessoas em todo o planeta, um estilo caracterizado pelo uso mais destacado da guitarra, dos teclados e dos instrumentos de sopro, uma versão do ritmo que faz mais concessões de apelo comercial, mas que não abre mão de alguns dos conceitos e mensagens caros ao gênero, como o entrelaçamento entre a mensagem espiritual e política.
Apesar deste processo ter mantido algumas das características essenciais do estilo, a grande maioria das bandas jamaicanas que adotaram esta interpretação do reggae tiveram que fazer uma escolha entre o mercado interno da ilha e a audiência externa. Isso aconteceu porque, se o reggae internacional teve um impacto entre os artistas da Jamaica, também foi rejeitado pela maior parte do público local. Muitos artistas tiveram que emigrar para a Inglaterra ou para os Estados Unidos, enquanto outros adotaram uma “carreira dupla”, gravando álbuns para serem lançados no mercado externo através das grandes gravadores, enquanto colocavam nas lojas da Jamaica compactos mais sintonizados com o que estava sendo feito localmente.
Na colagem da revista americana Black Music é possível reconhecer Burnig Spear (terceiro da esq. para dir.), Big Youth (de óculos escuros), Toots Hibberts (com o microfone), Bob Marley (com a guitarra em punho), U Roy (de baseado na boca) e King Tubby (de coroa)
O reggae cresce e se multiplica
Jacob Miller (na foto cantando com o Inner Circle) participou do filme 'Rockers'
Na segunda metade dos anos de 1970 apareceram os "Rockers", novos artistas como o instrumentista Augustus Pablo, o baterista Sly Dunbar e os cantores Johnny Clarke e Hugh Mundell. Eles tentaram responder à internacionalização do reggae radicalizando a forma de tocar e os temas abordados nas letras, desacelerando o ritmo musical (aproximando-se do rocksteady) e afiando ainda mais as palavras. Curiosamente a maioria não esteve presente no filme "Rockers", lançado em 1978. Como este filme mostrou, a filosofia rasta estava no auge, fazendo com que muitos artistas se convertessem à causa. Inspirados por ela, grupos como Ras Michael and the Sons of Negus e o de Count Ossie faziam dos tambores nyabinghi, tocados nas celebrações rasta, a base do seu som. O rastafarianismo também influenciou as letras de músicas de praticamente todos os artistas do roots e suas cores (vermelho, dourado e verde) e seus símbolos, como o leão de Judah e a estrela de David, adornavam as capas dos discos e compactos que saíam na época.
Capa do compacto "Conquering Lion", de Yabby You
Os DJs (ou deejays) também entraram em cena. Artistas como U Roy e Big Youth ganharam este nome porque falavam por cima das letras de música como alguns disk-jóqueis das rádios. Sem ficarem presos aos temas clássicos das canções populares, agiam como comentaristas do cotidiano, logo alcançando grande popularidade e fazendo a transição inevitável para a gravação de suas próprias faixas. Esta foi a grande inovação que o reggae apresentou à música popular em termos de performance vocal, influenciando o aparecimento do rap alguns anos depois.
Dessa forma, a música jamaicana estava ficando cada vez mais diversificada. Em cada esquina aparecia um estúdio novo e novos cantores, deejays e instrumentistas querendo mostrar o seu trabalho. A década de 1970 foi a época de maior investimento externo na indústria musical jamaicana, fazendo com que esta repercutisse ainda na cena mundial, tornando o reggae uma força inspiradora para a combalida música popular ocidental. Nesta época o reggae começou a ser ouvido em discos de mega-grupos de rock como os Rolling Stones e Led Zeppelin, passando pelos iconoclastas do punk, como The Clash e The Slits, até os artistas do chamado Terceiro Mundo, como Gilberto Gil no Brasil, Sonny Okusun na Nigéria e Alpha Blondy na Costa do Marfim.
Refluxo e retomada
Entretanto o falecimento de Bob Marley em maio de 1981, que causou uma grande comoção em todo o mundo, trouxe um retrocesso na ascensão do reggae no mercado internacional. Muitos artistas foram dispensados pelas grandes gravadoras e tiveram que continuar suas carreiras sob novas bases. Ao mesmo tempo em que o roots praticado na ilha radicalizava a sua proposta – tanto nas letras que pregavam a derrubada do sistema como na química sonora dos “dubs” –, novidades tecnológicas começavam a chegar, como os sintetizadores que podiam substituir uma banda inteira.
A situação política na Jamaica estava ficando cada vez mais tensa e os dois partidos rivais montaram milícias que levavam o país a um clima de guerra civil sempre que havia uma eleição. O político socialista Michael Manley (já falecido), que havia assumido o governo em 1972 renovando as promessas da época da independência, também havia falhado na sua tentativa de melhorar a dura vida dos ilhéus. Mais uma vez desiludido, o público voltou as costas para os artistas que tinham na mensagem revolucionária o seu tema principal, pois eram associados com o governo supostamente de esquerda de Manley.
Este, de fato, havia usado canções do reggae como jingles eleitorais ("Better Must Come", de Delroy Wilson, é o exemplo mais citado, mas outras também foram usadas), tendo conseguido ganhar a confiança de parte dos rastafaris graças a manobras populistas, como ir até a Etiópia visitar o imperador Hailé Selassié I. O sistema bipartidário jamaicano deixava (deixa ainda) poucas escolhas para os eleitores. Assim, antes mesmo de perder o seu principal ídolo, os jamaicanos elegeriam, em 1980, o direitista Edward Seaga (que supostamente havia sido o mandante de um atentado à vida de Marley antes das eleições de 76), confirmando a impaciência do povo da ilha. Em 1985, os primeiros reggaes eletrônicos ganharam definitivamente a simpatia do público jamaicano (ver Dancehall), fazendo com que muitos artistas se adaptassem (como Gregory Isaacs) abandonassem a música (como o Culture, que depois retomou a carreira, ou grupos como os Ethiopians, Melodians, Cables etc ) ou partissem da Jamaica (como Burning Spear, Meditations etc).
Roots Hoje
A partir de então qualquer reggae que não usasse sintetizadores como base principal passou a ser conhecido como roots, colocando sob a mesma denominação tanto o reggae internacional, quanto o roots original. Enquanto o reggae internacional continuava se mantendo em patamares bem mais modestos de venda (mas experimentando sucessos isolados como o de Ziggy Marley, que finalmente abriu o mercado americano, chegando ao topo das paradas em 1988, impulsionado pelo sobrenome famoso), o estilo roots continuou no ostracismo durante o restante dos anos de 1980 e o começo dos anos de 1990.
Bob Andy
Englobando os dois estilos citados acima, o roots reggae continua sendo o preferido pela grande maioria dos fãs do ritmo pelo mundo. Esta predileção foi reforçada pela onda de reedições que se seguiu à substituição dos discos de vinil pelos CDs e agora toma novo fôlego com os retomadas de várias bandas como os já citados Meditations e o interesse despertado por veteranos como Lee Perry e Bob Andy (foto acima). Muitos vêem este período como o mais importante e influente da música jamaicana, um ponto-de-vista contra o qual pode parecer difícil argumentar. Talvez o reggae naquele tempo fosse melhor trabalhado e elaborado do que o de hoje (até porque envolvia ainda mais instrumentistas). No entanto parece ser mais exato dizer que aquela era a música que melhor traduziu o seu lugar e época. Por isso ela continua cativando admiradores em todo o mundo com uma força poucas vezes igualada.
Luciano
Tal força criou uma nova situação que desafia os limitados rótulos e classificações cronológicas que podemos criar para melhor explicar a música que amamos, enquanto ilumina o que pode ser o futuro do reggae. Isso porque, nos últimos anos, o reggae jamaicano vem experimentando um resgate dos valores e dos ritmos do roots. Os antigos riddims (ver Rocksteady) estão sendo retomados com maior intensidade e uma nova geração, composta por artistas como Luciano (foto acima), Yami Bolo, Sister Carol, Capleton, Morgan Heritage, Everton Blender, Tony Rebel e o novíssimo Warrior King, vêm apresentando o que pode ser chamado de modern roots. Este estilo traz a mensagem política e religiosa do reggae dito tradicional, sem abdicar das facilidades tecnológicas, embora não abram mão de usar instrumentistas reais em suas músicas.
Fonte: www.reggaetotal.com.br / Revista Reggae News